Lado cruel

Moço,

Eu não tenho juízo, não mesmo. Eu já parti corações. Já perdi a dignidade um milhão de vezes em noites caóticas. Julguei. Fui julgada. E menti. Ah, como eu menti. Para tudo, para todos. Nem todos. Eu não menti pra você. Eu guardei esse meu lado cruel no bolso e virei a garotinha cheia de expectativas só pra te encontrar naquela noite. Deixei você me abraçar, e até afaguei seu cabelo na frente de todo mundo. Então, me diz, a razão pela qual você não guardou o seu lado cruel no bolso?

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Se não fosse trágico, não seria eu

São quase onze da manhã e eu não consigo sair da cama. Meu gato está enroscado em minhas pernas e eu estou enroscada em meus pensamentos. Achei que aquela fosse ser uma bela véspera de feriado. Eu teria você para mim, se tornaria real. Mas, pesadelos também podem ser reais.

Quando cheguei na estação, você ficou me olhando de um jeito constrangedor. Mas eu gostava do jeito que me olhava. Depois, você colocou meu chapéu em sua cabeça e começou à me guiar com as mãos em meus ombros. Parecia um sonho. Parecíamos um casal. Nos olhávamos e sorríamos como tal. Você me abraçou e acariciou meu cabelo, e eu quis congelar aquele momento para sempre. Nos beijamos. Que beijo! Seus lábios tocavam os meus com pressa, com necessidade, como se tivessem esperado muito tempo para aquilo. Você gostou, pelo menos foi o que eu achei, depois de ouvir um certo “uau” saindo da sua boca, mas acabou-se o que era doce.

Sei lá. Você quis ir embora. Você não queria me tocar mais. As pessoas ao redor pareciam te incomodar, eu parecia te incomodar. Te devolvi à estação, depois de ter tropeçado em uns lábios de outro alguém, não por vontade, mas pra me defender do que eu não sabia explicar. Você se foi sem respostas. Voltei cambaleando e sussurrando promessas que jamais irei cumprir. Encontrei aquela rapaz que estava com você, seu amigo. Ele não era você, mas ele me queria. Eu o beijei, você soube? O beijei até perder o fôlego, porque eu não queria pensar em você. Doce ilusão. Me deitei nele, no meio do nada, pra me defender de mim mesma e enquanto ele acariciava meu rosto, eu fechei os olhos e fingi que era você. Seria bom se fosse. Seria mágico. Mas se não fosse trágico, não seria eu.

Eu cheguei em casa fedendo à cachaça barata antes das seis da manhã e me joguei nessa cama, de onde não quero sair nunca mais.

Não existe felicidade em “nós”

Eu costumava pensar muito sobre como seria quando nos falássemos de novo. Pensei que tivéssemos mais uma chance de recomeçar com o que de fato, nunca começou. Nada tinha mudado pra mim, mas tudo tinha mudado pra você. Você não parou de viver, não que eu tenha parado, mas, as coisas continuam as mesma por aqui, até piores. Você subiu de cargo, comprou um carro e começou à namorar uma garota de nome engraçado. E eu, bem, eu continuo perdida dentro do meu caos. Não posso fingir que você perdeu grande coisa quando me disse “adeus”, porque acho que naquele momento, você assinou um termo de felicidade. Fico feliz que esteja feliz,mesmo que não comigo, mesmo que com ela. Queria que sua felicidade fosse comigo, que nossos destinos se cruzassem mais uma vez, mas não posso me enganar. Não existe felicidade em “nós”. Ela tem o mundo pra te dar e eu tenho pouco. Um coração deformado, um quarto bagunçado, meu caos. Eu entendo, você merecia mais. Só queria saber se eu também vou merecer algum dia.